Guilherme Charneski Carneiro, advogado do Núcleo de Seguros do Escritório de Advocacia Poletto & Possamai
Guilherme Charneski Carneiro
Há algumas décadas, a eletrificação dos automóveis era vista com desconfiança. Hoje, ela é o motor de uma revolução global irreversível. Apenas em 2024, as vendas mundiais de carros elétricos ultrapassaram 17 milhões de unidades, elevando a frota global para quase 58 milhões de veículos — cerca de 4% de todos os automóveis em circulação no planeta, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). No Brasil, como demonstra levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o fenômeno não é diferente: o país encerrou 2024 com o recorde de 173,5 mil veículos eletrificados vendidos, aumento de 85% em relação ao ano anterior. A frota nacional ultrapassou 700 mil unidades no primeiro trimestre de 2026, e os eletrificados já respondem por 14% das vendas de veículos leves. Essa adoção acelerada, contudo, trouxe à tona um obstáculo técnico e econômico para o mercado securitário: o risco atuarial deslocou-se da carroceria e do motor para a bateria de tração.
O núcleo desse novo desafio reside no fato de que a bateria não é apenas mais uma peça de reposição. Ela é o componente mais valioso do veículo elétrico, podendo representar entre 40% e 60% do preço total do automóvel. Do ponto de vista securitário, essa proporção altera completamente a lógica de sinistralidade construída ao longo de mais de um século de motores a combustão. Em uma colisão moderada, um dano que afetaria apenas o para-choque ou a suspensão de um carro tradicional pode atingir o invólucro da bateria de um veículo elétrico. Devido à falta de acesso a dados de diagnóstico celular e ao design de baterias estruturais com “reparabilidade zero”, as seguradoras são frequentemente forçadas a declarar perda total em carros com baixíssima quilometragem; um cenário impensável na era dos motores a combustão.
Essa dinâmica gera um efeito cascata que encarece a proteção patrimonial e ameaça a sustentabilidade do ecossistema elétrico. Dados recentes do mercado norte-americano, levantados pela Insurify, revelam que o seguro de um veículo elétrico chega a ser 42% mais caro do que o de um modelo equivalente a combustão. No Brasil, estima-se que as apólices custem entre 20% e 40% a mais, refletindo o alto custo da bateria, a escassez de mão de obra especializada e a falta de histórico atuarial consolidado. Um estudo da Thatcham Research apontou que os problemas relacionados às baterias são a principal preocupação para 44,6% das seguradoras e 41,7% dos profissionais de reparo, uma vez que pequenos danos podem resultar em perda total desnecessária, elevando os prêmios a níveis insustentáveis no médio prazo.
Em contrapartida, a indústria tenta reagir para mitigar esses impactos financeiros. Institutos de pesquisa europeus, apoiados por seguradoras como a Allianz, têm pressionado as montadoras a desenvolverem baterias modulares e a compartilharem dados diagnósticos com terceiros. O Electric Vehicle Blueprint, lançado no Reino Unido em março de 2026, propõe oito diretrizes para a indústria automotiva, exigindo a padronização de diagnósticos acessíveis e a viabilidade de reparos nas carcaças das baterias sem a necessidade de substituição completa do pacote. Tais medidas visam evitar que a bateria continue sendo tratada como uma “caixa preta” descartável, o que anula os benefícios ambientais da eletrificação ao gerar montanhas de lixo eletrônico prematuro.
Sobre esse ponto, Mateus Afonso, especialista em veículos elétricos e criador de conteúdo à frente do perfil @eletricarbr no Instagram, destaca que “(…) as baterias de veículos elétricos vêm apresentando rápida evolução tecnológica, com aumento da autonomia e redução dos custos de produção na última década. Contudo, ainda há grande disparidade entre as tecnologias disponíveis, coexistindo baterias amplamente conhecidas e de fácil reparo com modelos mais recentes, ainda pouco testados pelo mercado. Nesse contexto, a expansão da indústria chinesa, especialmente com a produção local de baterias e veículos, tende a reduzir os custos de manutenção e pressionar os prêmios de seguro para baixo, movimento que também se observa na Europa, embora enfrente restrições comerciais nos Estados Unidos “.
Nesse contexto, as seguradoras que desejarem manter relevância no mercado precisarão adotar estratégias concretas de adaptação. A primeira delas é a criação de produtos específicos para veículos elétricos, com franquias ajustáveis para componentes de alta tensão e coberturas segmentadas para a bateria. A segunda é o investimento em telemetria e seguros baseados no uso (pay as you drive), que permitem monitorar padrões de condução em tempo real e precificar o risco de forma individualizada, compensando a ausência de dados históricos. A terceira – e talvez mais urgente – é a formação de parcerias estratégicas com oficinas certificadas para o reparo, e não apenas a substituição, de módulos de bateria, reduzindo a sinistralidade média e evitando perdas totais desnecessárias. Seguradoras que já adotam essas práticas vêm se posicionando como referência no segmento.
O seguro de veículos elétricos representa, portanto, um ponto de inflexão na indústria de proteção patrimonial. A bateria, antes vista apenas como fonte de energia, tornou-se o fiel da balança na viabilidade econômica da mobilidade verde. Não é exagero afirmar que o sucesso da eletrificação automotiva dependerá da capacidade conjunta de montadoras e seguradoras em resolverem a equação do reparo e da precificação.
Somente com transparência de dados, modularidade no design das baterias e inovação nos produtos securitários será possível garantir que a transição energética não esbarre no custo proibitivo de proteger o próprio veículo. O mercado segurador tem, diante de si, não apenas um desafio técnico, mas uma oportunidade histórica de protagonizar a mobilidade do futuro — desde que esteja disposto a se reinventar na mesma velocidade em que os automóveis se eletrificam.
FONTE: LETS MARKETING
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Fonte: Revista Cobertura































