Guardado em uma urna de vidro, preservado em formol e protegido por um rígido esquema de segurança na Igreja de Nossa Senhora da Lapa, na cidade do Porto, em Portugal, o coração de Dom Pedro I permanece como uma das relíquias mais emblemáticas da história brasileira. Quase dois séculos após a morte do imperador, o órgão continua despertando curiosidade não apenas pelo simbolismo que carrega, mas também por uma questão pouco conhecida fora do setor de seguros: como proteger um patrimônio que simplesmente não pode ser substituído?
A resposta está em um segmento altamente especializado do mercado de seguros, voltado à proteção de bens cujo valor ultrapassa qualquer cálculo financeiro. Nesses casos, a finalidade da apólice deixa de ser apenas indenizar perdas e passa a concentrar esforços na preservação permanente do patrimônio, reduzindo ao máximo a possibilidade de qualquer dano.
Segundo Dorival Alves de Sousa, advogado, corretor de seguros, diretor do Sindicato dos Corretores de Seguros no Distrito Federal (Sincor-DF) e delegado representante da Federação Nacional dos Corretores de Seguros (Fenacor), seguros para patrimônios históricos são desenvolvidos especificamente para itens insubstituíveis. “Esses seguros são projetados para itens insubstituíveis, focando na preservação e não apenas na substituição”, explica.
Antes mesmo da contratação da apólice, o patrimônio passa por uma avaliação detalhada conduzida por especialistas, que analisam sua relevância histórica e cultural, as condições de conservação, os custos de restauração e toda a estrutura necessária para minimizar riscos. A lógica é simples: quando não existe possibilidade de reposição, cada medida preventiva se torna parte essencial da própria cobertura.
No caso do coração de Dom Pedro I, Dorival ressalta que não existem informações públicas sobre o valor do seguro contratado durante a passagem da relíquia pelo Brasil nas comemorações do Bicentenário da Independência, em 2022. “Não há informações públicas específicas sobre o valor do prêmio do seguro contratado. Essas informações geralmente permanecem em sigilo devido à natureza sensível e única do patrimônio”, afirma.
O especialista observa ainda que a operação realizada em 2022 teve características excepcionais. O traslado da relíquia envolveu protocolos diplomáticos e de segurança de Estado, sendo tratado de maneira muito diferente de uma operação comercial convencional. “Não existe um seguro comercial aberto ao público desenhado para o coração de Dom Pedro I. A contratação da apólice ocorreu como uma exigência de Estado durante as comemorações do Bicentenário da Independência, e o valor nunca foi divulgado”, destaca.
Em apólices voltadas a patrimônios históricos, a gestão de riscos assume papel central. As seguradoras normalmente exigem rigorosos protocolos de conservação, incluindo controle permanente de temperatura e umidade, monitoramento eletrônico, vigilância especializada, controle de acesso e planos específicos para prevenção de acidentes. “As apólices incluem rigorosos requisitos de conservação, como controle ambiental e medidas de segurança física. O objetivo é minimizar riscos e garantir que o item permaneça em condições ideais”, explica Dorival.
As coberturas também são personalizadas e podem contemplar incêndios, inundações, fenômenos naturais, vandalismo, negligência humana, acidentes durante o transporte, responsabilidade civil e custos de restauração realizados por profissionais especializados. Em muitos casos, os contratos seguem o modelo conhecido internacionalmente como “All Risks”, protegendo praticamente qualquer evento que não esteja expressamente excluído na apólice.
Embora seja um segmento pouco conhecido do grande público, a proteção de obras de arte, acervos e patrimônios históricos representa uma oportunidade crescente para os profissionais do mercado de seguros. Museus, igrejas, instituições culturais, fundações, órgãos públicos e colecionadores privados figuram entre os principais clientes desse tipo de solução, impulsionados pela valorização do patrimônio cultural e pela necessidade de proteger bens únicos.
Para Dorival, esse cenário abre espaço para uma atuação cada vez mais especializada dos corretores. “O mercado de seguros para obras de arte e patrimônios históricos é uma área promissora para corretores de seguros”, afirma. Segundo ele, a especialização permite oferecer consultorias altamente personalizadas, desenvolver soluções sob medida e construir relacionamentos de longo prazo com clientes que buscam conhecimento técnico e gestão eficiente de riscos.
Mais do que garantir uma eventual compensação financeira, o seguro para patrimônios históricos desempenha um papel silencioso, mas essencial: preservar a memória. Em um país que concentra parte significativa de sua identidade em igrejas, museus, monumentos, acervos e relíquias, proteger esses bens significa assegurar que a história continue acessível às próximas gerações. É justamente nesse ponto que o mercado de seguros amplia sua atuação, transformando a proteção patrimonial em uma ferramenta de preservação cultural.
Fonte: Portal CQCS
















