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terça-feira, julho 21, 2026 19:59
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O roubo de carga está caindo e ficando mais perigoso

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Há um erro recorrente quando olhamos para indicadores de segurança pública e privada: acreditar que a queda fria dos números significa, automaticamente, a redução real do risco. É exatamente esse o cenário que estamos testemunhando hoje no roubo de cargas no Brasil. Os dados mais recentes mostram uma redução importante nas ocorrências.
Em São Paulo, por exemplo, os registros caíram mais de 34% entre janeiro e maio deste ano, atingindo o menor patamar da série histórica para o período. À primeira vista, é uma excelente notícia que deve, sim, ser comemorada. O problema começa quando essa leitura estatística gera uma falsa sensação de missão cumprida.
O crime organizado não desapareceu; ele apenas mudou de estratégia. Em vez de atuar no grande volume, o crime passou a operar com maior inteligência de mercado, escolhendo alvos mais rentáveis, explorando novas janelas de oportunidade e concentrando esforços onde encontra menor resistência.
Em outras palavras, enquanto as estatísticas apontam para baixo, a sofisticação das quadrilhas continua subindo. Esse talvez seja o maior paradoxo da segurança logística atual: não estamos diante de um criminoso menos ativo, mas sim de um criminoso muito mais seletivo.
Menos ataques, prejuízos maiores: a lógica corporativa do crime
Os próprios dados de mercado ajudam a explicar essa transformação silenciosa. Enquanto São Paulo registra uma queda consistente nas ocorrências, o Rio de Janeiro concentra uma parcela crescente dos prejuízos nacionais provocados por roubos. Além disso, corredores estratégicos de transporte continuam sendo pressionados diariamente, demonstrando que o problema não sumiu, mas apenas mudou de endereço e de intensidade.
Mais revelador ainda é observar quais cargas passaram a ser priorizadas pelas quadrilhas. Medicamentos, por exemplo, tiveram um salto expressivo na participação dos prejuízos registrados. Não há coincidência aqui: são produtos de alto valor agregado, fácil revenda e enorme liquidez no mercado receptador ilegal.
Na prática, as organizações criminosas passaram a adotar uma lógica empresarial. Elas buscam menos operações, porém com um retorno financeiro muito maior. Outro movimento importante acontece no relógio. A concentração das ações criminosas durante a madrugada cresce justamente porque esse período oferece menor fiscalização nas rodovias, menor circulação de veículos e maior facilidade de fuga.
As quadrilhas estudam rotinas, analisam vulnerabilidades sistêmicas e aproveitam brechas operacionais. Não existe improviso, existe planejamento. Essa realidade muda completamente a forma como as empresas precisam enxergar a gestão de riscos: o foco deixa de ser apenas proteger mais caminhões e passa a ser proteger melhor cada operação de forma individualizada.
O perigo invisível do “sucesso” estatístico
É fundamental entender que os números não caíram por acaso. A expansão do uso de inteligência embarcada, monitoramento em tempo real, análise preditiva, rastreamento avançado e, principalmente, a integração de informações entre indústrias, transportadoras, gerenciadoras de risco e forças de segurança produziu resultados concretos.
Nos primeiros meses deste ano, somente as operações apoiadas por tecnologias preditivas evitaram dezenas de milhões de reais em prejuízos no transporte de cargas.
Esse indicador é essencial porque prova que a prevenção funciona, mas ele também revela um comportamento perigoso na gestão de negócios: quando os indicadores de sinistralidade melhoram, muitas empresas começam a questionar os investimentos justamente nas ferramentas que geraram essa melhora.
É a velha armadilha de interpretar a ausência de incidentes como ausência de ameaça. A segurança eficiente raramente chama a atenção porque seu papel é, justamente, fazer com que o pior não aconteça.
O crime organizado evolui continuamente e quem trabalha com logística precisa correr no mesmo ritmo. O grande aprendizado recente é que a redução das ocorrências não significa que vencemos a batalha, mas que algumas estratégias começaram a dar certo. Abandoná-las agora seria oferecer ao crime o espaço exato que ele precisa para se reorganizar.
Enquanto o roubo de carga diminui em quantidade, ele cresce em efetividade, e essa é uma mudança muito significativa para quem demora a perceber.
*Paulo Buriti é gerente corporativo da Corpvs, empresa especializada em soluções de monitoramento e segurança patrimonial.

Fonte: Revista Apólice

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