
Reforma em imóvel de leilão pode virar desastre: seguro residencial pode não cobrir o que o comprador imagina
Comprar um imóvel barato em leilão e começar uma reforma imediatamente pode parecer a forma mais rápida de capturar valorização. Mas o período de obra também pode ser quando o patrimônio fica mais exposto a incêndio, danos elétricos, vazamentos, acidentes, furto de materiais e prejuízos a terceiros. O erro mais comum é imaginar que basta ter um seguro residencial ativo para considerar qualquer problema durante a reforma coberto. Não basta. A SUSEP deixa claro que seguro residencial é um produto compreensivo formado por coberturas específicas e riscos excluídos. A Lei nº 15.040/2024, por sua vez, determina que o segurado comunique agravamento relevante do risco tão logo tome conhecimento. Em imóvel comprado em leilão, a combinação é ainda mais sensível porque a obra costuma começar em um ativo que pode ter ficado vazio, ocupado por terceiros, sem manutenção ou sem acesso completo antes da aquisição. Antes de definir quanto gastar, uma avaliação do imóvel comprado em leilão ajuda a estimar se a reforma pretendida cabe no valor de mercado esperado depois da intervenção. Reforma pode mudar o risco que a seguradora aceitou Quando uma apólice é emitida, a seguradora avalia as informações disponíveis sobre o risco. Uso do imóvel, ocupação, características construtivas e outras circunstâncias podem influenciar a aceitação e o prêmio. Uma reforma relevante pode mudar esse cenário. Durante a obra podem surgir: instalações elétricas temporariamente expostas; uso de equipamentos que geram calor; retirada de portas ou janelas; interrupção de sistemas hidráulicos; armazenamento de materiais; entrada constante de prestadores; demolições internas; mudanças estruturais; períodos de desocupação. A Lei nº 15.040/2024 define como relevante o agravamento que aumente de forma significativa e continuada a probabilidade de realização do risco ou a severidade de seus efeitos. Quando isso ocorre, existe dever legal de comunicação à seguradora. Não existe uma resposta universal para “seguro residencial cobre reforma?” A resposta correta é: depende da apólice, do tipo de obra e do evento que causou o prejuízo. A SUSEP informa que seguros residenciais podem oferecer coberturas como incêndio, danos elétricos, roubo e furto, vendaval, alagamento, impacto de veículos e responsabilidade civil, entre outras. Mas uma lista de coberturas disponíveis no mercado não equivale à cobertura contratada por determinada pessoa. Além disso, condições gerais podem excluir eventos ligados a vício intrínseco, má qualidade, desgaste natural e outras situações. Durante uma reforma, essa distinção ganha importância porque o dano pode decorrer do próprio estado anterior do imóvel, de falha de execução, de evento acidental externo ou de combinação desses fatores. Incêndio durante obra pode gerar uma discussão muito diferente do incêndio comum Imagine uma reforma que envolva solda, corte, alteração de quadro elétrico ou uso de materiais inflamáveis. Se ocorre incêndio, não basta perguntar se a apólice contém a palavra “incêndio”. Será necessário analisar a causa do evento, as condições contratadas, as exclusões e as informações prestadas à seguradora. A cobertura securitária é determinada pelo contrato e pela legislação, não pela impressão genérica de que “casa segurada está protegida contra qualquer incêndio”. É justamente por isso que a SUSEP recomenda ao consumidor ler as condições e verificar expressamente riscos cobertos e excluídos antes da contratação. Seguro residencial e seguro de riscos de engenharia não são a mesma coisa A SUSEP utiliza a expressão riscos de engenharia para seguros destinados a proteger interesses relacionados a obras, instalações e montagens contra acidentes súbitos e imprevistos dentro das condições contratadas. Isso não significa que toda reforma residencial exija obrigatoriamente um seguro específico desse tipo. Significa que existem produtos diferentes para exposições diferentes. Uma pintura simples possui risco diferente da reforma completa de uma casa com alteração de instalações, demolição e intervenção estrutural. Quanto maior e mais complexa a obra, mais importante se torna perguntar à seguradora ou ao corretor se o seguro residencial atual é adequado ou se outra solução deve ser considerada. O valor pago no leilão não diz quanto deve ser segurado Um imóvel arrematado por R$ 400 mil pode ter valor de mercado de R$ 650 mil. Outro adquirido pelo mesmo preço pode precisar de R$ 200 mil em reforma para chegar a um valor final de R$ 550 mil. O preço de arrematação é resultado do leilão. Ele não define sozinho o valor econômico da construção nem o interesse que será protegido pela apólice. Por isso, seguro e avaliação não devem ser misturados. A avaliação ajuda a entender o ativo e a viabilidade do investimento. O seguro define proteção contra riscos contratados conforme capital, coberturas, franquias e condições. Reformar demais também pode destruir a rentabilidade O seguro protege contra determinados eventos, mas não protege contra uma decisão econômica ruim. Um dos erros comuns em imóveis de leilão é reformar acima do padrão que o mercado local remunera. O comprador adquire um apartamento de padrão médio e instala acabamentos de alto luxo, imaginando recuperar integralmente o gasto na revenda. O mercado, porém, pode não pagar essa diferença. Antes de iniciar a obra, vale projetar: Item Pergunta Valor atual Quanto o imóvel vale nas condições em que foi adquirido? Custo da reforma Qual orçamento completo, incluindo imprevistos? Valor pós-obra Quanto imóveis realmente comparáveis valem depois de reformados? Prazo Quanto tempo capital e imóvel permanecerão imobilizados? Risco Quais eventos podem gerar perdas durante a execução? Obra começa depois da posse, não depois do lance Outro erro grave é tratar o imóvel como fisicamente disponível assim que o leilão termina. Se o bem está ocupado, qualquer intervenção deve respeitar o procedimento de posse. Iniciar obra, trocar fechaduras ou retirar bens sem situação jurídica adequada pode criar novos conflitos. Por isso, antes de contratar empreiteiros, o comprador precisa verificar se possui acesso legítimo e se a aquisição está na fase adequada para a intervenção. Os riscos jurídicos da arrematação precisam ser avaliados em paralelo aos riscos físicos da reforma. Imóvel vazio durante obra também exige atenção Muitas reformas são realizadas com o imóvel totalmente desocupado. Isso pode facilitar o trabalho, mas também altera a exposição. Uma unidade sem moradores pode demorar mais para detectar vazamentos, falhas elétricas, invasões ou outros

